segunda-feira, 3 de junho de 2019

Território: em busca de um conceito

Em relação às três categorias que compõem a construção do discurso geográfico (paisagem, território e região), é importante considerar que possuem conceitos diferentes e interdeterminantes.  A primeira delas está associada à dimensão da aparência e, portanto, ao processo de percepção das formas do mundo pelo sujeito. Tal percepção é, por sua vez, a imediatidade, isto é, a condição que cada um de nós possui, tendo como referência os saberes já construídos e passíveis de se acessar imediatamente, de reconhecer as formas do mundo utilizando de nossos sentidos. A possibilidade do sujeito de reconhecer a distribuição das formas percebidas (tamanho, distância, interrelação) é o que permite que seu pensar sobre o mundo ultrapasse o limite da imediatidade (aparência) e chegue à condição do reconhecimento mediatizado, pensado. Este concreto pensado é o Território. 
Para evitar maiores confusões vale considerar que o território do poder é, de fato, uma região, isto é, o território tematicamente recortado. O Brasil, por exemplo, possui um território, mas o discurso que faço sobre ele e que tem a existência do Estado Nacional enquanto territorialidade (País) como pressuposto é, de fato, o reconhecimento de que Brasil é uma região cuja identidade está na existência de um Estado Nacional específico. Por fim fica a mesma indicação já feita em relação às categorias anteriores: território não é uma coisa, mas o reconhecimento de que o ecúmeno humano possui formas e que é dessa percepção  que se ordena a dimensão topológica que possui (co-habitação), é a indicação da existência de uma ordem que define os diferentes processos que compõem a realidade empírica. 

domingo, 2 de junho de 2019

Há vida inteligente no comando do palácio do planalto???

 Para os tempos de hoje a resposta a essa pergunta pode ser crucial para a análise da política de Estado no Brasil, na identificação de seus sujeitos, no reconhecimento das cartas que estão sobre a mesa e, nesse contexto, daquelas que se encontram escondidas e cuja ordem desconhecemos. 
Confesso, com certa alegria, que essa tentativa de reflexão me foi provocada por um artigo que li na internet, estava disponibilizado no twiter dos Jornalistas Livres e foi escrito por Rodrigo Perez Oliveira, professor de Teoria da História na Universidade Federal da Bahia e pode ser encontrado emhttps://jornalistaslivres.org/o-bolsonarismo-radicalizou-o-lugar-da-fala/
Vejamos alguns fundamentos de caráter metodológico para que possamos reduzir a inelutável ambiguidade da resposta. No passo a passo da reflexão, a primeira pergunta a se fazer é: o que entendemos por vida inteligente em um lugar determinado?
Considerando as pesquisas recentes que identificam um leque cada vez mais amplo de animais superiores capazes de construir cultura e, portanto, de mudarem de comportamento através da aprendizagem, vida inteligente pode ser encontrada em muito mais lugares que aqueles habitados por seres humanos. 
Uma resposta como essa nos coloca frente ao ridículo da pergunta inicial. Se inteligência é a expressão que nos permite identificar comportamentos associados à construção de culturas, então no Palácio do Planalto tem inteligência por trás do emaranhado de discursos e comportamentos considerados nonsenseou estúpidos ou… bem, não importam os adjetivos. Fiquemos no limite de identificar como comportamentos pouco inteligentes.
Vejamos: se a expressão “inteligente” está associada à capacidade de “interlegir” e, portanto, de “ler por dentro”, identificar relações que não são óbvias, reconhecer significados nas entrelinhas e assim por diante, a relação direta entre inteligência e construção de cultura fica um tanto quanto abalada. 
Acontece que “ler por dentro” implica, sempre, ler algo determinado, isto é, responder a um desafio, cujo controle não está nas mãos dos sujeitos desafiados e, portanto, inteligentes em determinadas situações podem se mostrar medíocres sob outras. Assim, podemos afirmar que não existe inteligência no geral, mas a expressão deve ser utilizada para identificar aqueles que respondem melhor a este ou a aquele desafio. Fico aqui imaginando a minha relação com os pincéis, com instrumentos agrícolas e com uma interminável lista de assuntos com os quais não tenho qualquer familiaridade. Não consigo tocar um instrumento musical sequer, nem mesmo uma flauta doce e, portanto, em relação à música me coloco na posição de um ouvinte mais ou menos medíocre (uso a mim mesmo como exemplo para evitar polêmicas desnecessárias)
 O segundo passo desse “procedimento metodológico” se aproxima mais do artigo de Oliveira, pois, imagino, se faz necessário questionar se, independentemente da inteligência dos sujeitos, o conhecimento é algo possível. Lembro sempre nesses momentos de um embate entre Henry Lefebvre e Cassirer. Enquanto o neo-kantiano escreve milhares de páginas sobre “O Problema do Conhecimento”, o marxista afirma que o conhecimento não é um problema, é um fato. Em um resumo forçado e feito de memória, diria que o conhecimento só se torna um problema quando se torna objeto de reflexão metafísica. O homem comum (Goldmann?) sabe que sabe, porque o resultado de seus atos estão conforme suas expectativas e reconhece que não sabe quando seus fazeres (incluindo aí os seus pensares) não dão conta de seus objetivos. Em linhas gerais, todo ceticismo em relação ao saber é um reconhecimento de que o saber existe.
É aí que, no meu entender, Oliveira mostra a genialidade de sua reflexão: ao apontar que, com interesses aparentemente tão díspares, certos militantes do movimento negro, outros do movimento indígena, feminista e por aí vai, possuem fundamentos epistemológicos que se associam aos bolsomínios e aos terraplanistas e pos aí vai….
Fica, portanto, a dúvida que intitula essa reflexão: há vida inteligente na cúpula do palácio do planalto? Se inteligência for algo genérico e metafísico, certamente que sim, se não é esse o caso e, portanto, ela estiver associada aos desafios assumidos pelos sujeitos… aí permanece a dúvida. Assumindo como pressuposto que não existe inteligência nem conhecimento genérico ou, como o poeta diria do amor, como verbo intransitivo, então vale perguntar se esse grupo que assumiu a política de Estado no Brasil tem inteligência e é capaz de produzir saberes associados diretamente a essa tarefa e, pelo que se tem visto, a resposta é pura e simplesmente não. Essa trupe nascida e crescida e educada para gestar relações de milicianos e enquanto milicianos, que sobreviveu na política no contexto de permanecer no baixo clero, tem governado (e sobre isso já refletiu Eliane Brum), mas isso não significa que saiba fazê-lo. Ao que parece a inteligência que possui não responde aos desafios colocados e, nessa condição, provavelmente não sobreviverá. 
Do ponto de vista dos inteligentes de Brasília (essas figuras existem), no roldão do movimento geral que deu na composição do atual governo, mantê-lo deve estar associado à inexistência de  alternativas à direita (uma eleição nesse momento, provavelmente colocaria o PT no poder). Assim, respondendo à pergunta inicial: as inteligências na cúpula dos três poderes estão dispersas, procurando algum ponto sobre o qual criar alianças tácitas e controlar a guerra entre grupos mafiosos que se articulou a partir do impedimento de Dilma Roussef. Essa guerra entregou o poder a um desses grupos, mas está longe do seu fim. Pactos de cessar fogo duram pouco e tendem a se tornar cada vez mais frágeis. Nesse momento se articula uma luta que não tem nem mesmo a direita ou a extrema direita como alvo. O que se objetiva, desesperadamente, é que um grupo de pessoas que possuam alguma inteligência para gerir o palácio do planalto e as cúpulas que se distribuem pela esplanada dos ministérios, venha em socorro do país. 
Que pena… empobrecemos até os nossos desejos, o que mostra que estamos sendo pouco inteligentes. 

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Geografia: seus assuntos e seus caminhos metodológicos

Os temas não definem se uma abordagem é ou não geográfica. Podemos falar de relevos, rochas, climas, mapas, populações, cidades, campos e tantos outros temas mais, tendo como referência os saberes fundados na geologia, na climatologia, na cartografia, na demografia, na sociologia, na economia, física, química, e a lista não terá um final que satisfaça os que se preocupam com o assunto. O que define uma ciência é a maneira como o sujeito constrói sua dúvida e, fazendo uso de uma tradição, busca responder o que ainda não foi respondido e, na melhor da hipóteses, perguntar o que ainda não havia sido perguntado. Para sabermos se uma abordagem é ou não geográfica há, sem dúvida, um ponto de partida cuja fundamento acharemos em suas próprias raizes: A pergunta do sujeito deve estar, antes de mais nada, associada à relação possível entre a distribuição e localização dos elementos que compõem um processo e a maneira pela qual tal condição define o próprio processo. Tal resposta, no entanto é insuficiente, pois, de uma maneira ou de outra, o reconhecimento da ordem possível de qualquer fenômeno é uma busca primária em qualquer campo do conhecimento. É preciso avançar e identificar que na nossa tradição, independentemente da infinidade dos temas possíveis, todos se associam à escala do ecúmeno humano. Para a tradição geográfica a disposição das estrelas só fazem sentido se nos ajudam a localizar uma direção ou ponto específico em nosso planeta e associado diretamente ao nosso viver. Da mesma maneira, a estrutura química de uma rocha e, portanto, o ordenamento molecular que a define, só interessa à geografia quando tal informação nos ajuda a entender o sentido de “lugar” que ela cria e, portanto, em que medida estar onde está define o existir das sociedades que, direta ou indiretamente, a ela estão associadas. É por isso mesmo que a cartografia é a linguagem mais utilizada pela geografia, pois, no final das contas, é a que permite representar “topológicamente a topologicidade do fenomênico na escala do ecúmeno humano” (juro que não copiei essa proposição de um manual de bruxaria). Assim, para além dos temas, o que define uma ciência é a dúvida sistematizada por um sujeito e é, justamente, na maneira pela qual ele a constrói que se define qual é o seu objeto. Não é o objeto que define uma ciência, mas a maneira pela qual o sujeito o constrói e, portanto, não basta ser geógrafo (e nem ao menos é uma condição prévia) para se fazer geografia, é preciso saber construir suas perguntas e, por consequência, achar os caminhos que permitam construir respostas.    

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Monteiro Lobato, um biógrafo.

Monteiro Lobato foi um biógrafo. Não um biógrafo comum, desses que se dedicam a pesquisar a vida das pessoas, identificar detalhes, entrevistar parentes e publicar algo em torno de 500 ou 600 páginas, começando pela identificação de pais e avós e terminando, quando é o caso, com o enterro daquele que ali já virou um personagem. Claro! Há aqueles que são auto biógrafos. Alguns super interessantes como Saramago e seus Cadernos de Lanzarote, outros menos interessantes como Caetano Veloso e suas Noites Tropicais. De toda maneira, há biógrafos e biógrafos, mas poucos ou quase nenhum podem ser comparados a Monteiro Lobato.
Em primeiro lugar porque ele não escreveu sobre uma pessoa, mas sobre um lugar e, como não há como falar dos lugares sem que se evidencie sua identidade, no caso de Lobato ele teve de falar das pessoas que faziam daquele o lugar sobre o qual ele queria falar.
O segundo ponto é que ele não foi atrás de nenhum documento, não entrevistou ninguém, não se imiscuiu na vida de ninguém. Os personagens do lugar que ele biografou ele mesmo os inventou e, por isso mesmo, eles eram do jeito que lhe pareceu melhor. 
O terceiro ponto é que ele não biografou nem o começo nem o final daquele lugar. Fico imaginando que não teve tempo, mas isso é mesmo só fruto de minha imaginação. Talvez uma biografia como essa ficasse muito sem graça (como poderia comentar uma de seus personagens) ou nem mesmo fosse do interesse dos seus leitores... bom... não importa: o fim daquele lugar não teve registro por parte do seu biógrafo principal e assim, algumas gerações de leitores que acompanharam a biografia ficaram com ela em suas memórias, foram por ela marcados indelevelmente (como eu, por exemplo) e, vez ou outra, respiramos fundo e fazemos o lugar voltar à vida. 
Mas, o fato é que nos dias de hoje Lobato “passou da moda”. Os livros para crianças foram sendo reduzidos a um amplo conjunto de belas imagens e o esforço da leitura foi sendo colocado como um empecilho para os novos leitores. Creio que isso é uma tolice sem fim, que crianças leem longos parágrafos quando neles estão escritos segredos e aventuras que, de alguma maneira, lhes permita construir imagens em suas cabeças, bem como se debruçam sobre imagens relativamente incompreensíveis quando buscam resposta a alguma dúvida – o fascínio por mapas é um exemplo disso. Bem, não importa... de que valeria uma discussão acirrada com pedagogos e editores ciosos de suas verdades para os comentários que estou fazendo?
O que sei é que li Reinações de Narizinho ao menos por cinco vezes e sei de gente que ultrapassou essa cifra. Naquela idade não me interessava saber o final, mas acompanhar a história, me deliciar em ser um observador, em saber sei lá o que de sei lá o que, desde que fizesse parte daquele imaginário, daqueles personagens, daquele mundo que, para nossa conversa, chamarei apenas de Sitio.
Hoje, passado dos 65, as imagens já estão um tanto quanto soltas. O que sei é que foi com Lobato que descobri que havia uma história do mundo e um mundo das fadas e da pura fantasia, um mundo das máquinas simples e um mundo do petróleo e da geologia, havia também um mundo da mitologia grega e o mundo do Dom Quixote, que a minha língua possuía uma gramática, mas que gramática não era a garantia de um bom texto, de que meus números tinhas uma aritmética e que isso tinha uma ordem gramatical, soube de coisas da astronomia, da geografia do mundo e do mundo mágico que rondava a cultura popular daqueles tempos. Aprendi que uma família podia ser a junção de uma boneca, um rinoceronte, um menino e sua prima e uma avó e sua cozinheira, contando com ajuda sistemática de uma espiga de milho falante metida a cientista. Aprendi a achar os subversivos mais interessantes que os conformados ou os defensores do status quo. Diferente dos adultos que conhecia, logo nas primeiras páginas do Reinações aplaudi os aplausos de Narizinho quando soube que os personagens dos contos de fada queriam fugir de seus livros embolorados em busca de novas aventuras. A vida sem aventura é a vida sem magia e isso não tem graça. O politicamente correto é, de fato, a postura mais incorreta que existe. 
Bom... nos dias de hoje se nega até mesmo a literatura de ontem e, portanto, os preconceitos típicos das antigas fazendas escravistas do vale do Paraíba se tornaram um impedimento moral para que as crianças fossem estimuladas a ler o Biógrafo do Sítio. Não importa (ou importa?), mas nesses dias em que a esquerda se mostra moralista e assexuada fazendo críticas à direita que chama de conservadora (e é de fato), biógrafos desse tipo serão colocados na fogueira dos livros indecentes. Pela direita porque o autor era comunista, pela esquerda porque ele era racista e, se tudo acontecer como deve ser em uma boa História, Lobato voltará às prateleiras como um dos mais importantes escritores brasileiros do século XX. A biografia que escreveu é atemporal porque era daquele tempo. Subversiva, revolucionária porque, carregada de vida, era também reacionária, conservadora como os revolucionários daquela época. 
Quem seria capaz de escrever um livro infantil onde os seres humanos se tornaram alimento para os pássaros e andavam pelados pelas ruas, onde Hitler foi encontrado escondido como uma barata num vão de um rodapé e as minhocas se tornaram a principal comida de uma comunidade em torno de um balde? Quem atormentaria a cabeça de um pequeno leitor se perguntando o como Hércules tirou a pele do Leão de Nemeia se ela era indestrutível? Quem colocaria para pequenos leitores dúvidas linguísticas associadas ao significado de “vaca” em língua portuguesa ou, ainda, chamaria de herói o bárbaro que, no momento de beijar os pés do Rei, levantou-o e o jogou para trás? Seria viável para seus detratores colocar um menino e um saci discutindo o significado de liberdade? 
Bom... fica aqui minha homenagem pública ao meu mestre, sobre cujos textos mergulhei minha infância e que agora ainda povoa meu imaginário quando escrevo meus livros didáticos ou entro em uma sala de aulas. Assim como a minha, e creio que inadvertidamente, Lobato, ao escrever a biografia do sítio também escreveu a História de muitos de nós, antes mesmo que ela ocorresse. 




  

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O Povo e as Ruas

Sou um feroz leitor de blogs sujos. Não leio os “limpos”.  Perdi completamente minha paciência e, vez ou outra, também não leio os “sujos” ou os leio na diagonal. O momento histórico está, aparentemente, carregado de monotonias. Estamos, todos os dias, falando o mesmo, acreditando na crítica que fazemos aos “blogs limpos” dizemos que eles repetem milhares de vezes a mesma mentira até que ela se torne verdade e, assim, estamos repetindo milhares de vezes nossas verdades para que se tornem verdades para os outros.
No momento a reclamação geral está na ausência dos maiores interessados, dos mais fragilizados, daqueles que votaram na presidenta e vivem sob jugo do usurpador, que tinham certos direitos e os perderam, que tinham emprego e estão na rua da amargura, que, apesar de empregados, não recebem seus salários, que, apesar de carregaram carroças, acabam morrendo pelas mãos da polícia. Os negros, as mulheres, os gays, as minorias que são maiorias estatísticas, os judeus, árabes, haitianos, as putas, as estupradas, os escravizados, os índios, os “especiais”, aqueles todos que teriam por obrigação pertencer à esquerda e defender nossos (seus) direitos. As ruas, paulatinamente, vão ficando mais vazias e, ao que parece, estamos nos acostumando novamente a nos mostrar indiferentes. A imagem que me vem é a do mascate simpático: sorri para todos, cumprimenta a todos, mas só ele sabe de suas dores. Ou, como diria o Chico Buarque:
Em toda canção
O palhaço é um charlatão
Esparrama tanta gargalhada
Da boca para fora
Dizem que seu coração pintado
Toda tarde de domingo chora 

E assim, de uma maneira ou de outra, os blogs sujos parecem chorar a ausência do povo nas ruas e se perguntam, como já tantas outras vezes na História, o que aconteceu, quem errou, como colocar o Temer, o Maia, o Congresso, o Lula, o Moro, o PT, o DEM e o pato da FIESP na vala mais comum do esquecimento?????
Num desses lamentos mais que sinceros, Eliane Brum nos alertava que já fomos às ruas pela catraca livre, que nos batemos contra o PT e contra a corrupção, que denunciamos o Moro por ser um juiz sem a venda nos olhos e que, antes de recoloca-la, distribui os pesos da balança de acordo com seus preconceitos fascistas. Não me lembro muito bem se ela disse isso tudo, mas foi assim que minha memória registrou. O essencial é que ela se questionava sobre o como e o porque vamos às ruas para denunciar ladrões, mas deixamos de lado o denunciar dos assassinos. Não vamos anistiar corruptos, mas anistiamos torturadores. Levei um susto ao ler tudo isso, lembrei-me do que não deveria nunca ter esquecido, conclui rapidamente que Moro se tornou mais importante que a Comissão da Verdade... compreendi que pertenço a um povo e, certamente, a uma esquerda cujo moralismo é estruturalmente imoral.
Volto aqui ao ponto mais que sensível dos meus embates: o fato de que confundimos, ou diluímos, a ideia de poder político com a presença de militantes de esquerda na máquina de Estado. Confundimos ou diluímos a noção de poder e de política com a noção de Estado e, mais que isso, confundimos o movimento sindical com o movimento operário e as reivindicações sindicais com luta de classes.
 Os pretensamente mais críticos chamam os anos de governo petista de Lulismo. Algo tão simplificador como Stalinismo, Hitlerismo, Getulismo, Comunismo ou, mesmo, no limite, Capitalismo e Imperialismo. É preciso dizer o que queremos dizer quando dizemos o que dizemos ou, certamente, estamos querendo enganar a quem nos lê ou escuta.
É preciso evidenciar que Lula é a expressão mais sofisticada e acabada da razão sindical em nosso país. Que o governo que ele encarnou foi seguido, defendido, ajustado, readequado, negociado, desenvolvido e realizado por milhões, aqui no Brasil e com o devido respeito de governantes de quase todo o mundo. Assim como Hitler não explica o nazismo (fiquemos somente nesse exemplo para evitar repetições inúteis), Lula não explica a maneira pela qual a esquerda brasileira abandona o movimento popular, se torna funcionária pública e vai reler o que aprendeu nas ruas, nos bairros, nos acampamentos, nas aldeias, como negociadora de Estado.
Desde que aceitamos a Anistia ampla, geral e irrestrita, dissemos com todas as letras, a todos os que ouviram essa mensagem, que nos colocávamos como corresponsáveis pela violência, em pé de igualdade com assassinos fardados ou sem fardas.
Olhamos para nós mesmo não como aqueles que resistem, mas como aqueles que provocam e, como crianças travessas, perdoamos nossos pais por nos surrarem, consideramos que fomos nós que fizemos as travessuras.
Na sequência histórica do processo, nos diluímos no PT, porque, de alguma maneira, imaginamos que dentro dele negociaríamos publicamente um projeto de esquerda para o Brasil.... Não conseguimos: nosso limite foi a lógica sindical e a esquerda se resumiu a um grande projeto de inserção de parcela considerável da população, profundamente marginalizada, no interior das relações mais clássicas do mercado. E nós, a esquerda, falamos com algum orgulho (e, agora, com alguma desconfiança) dos números quase impensáveis de pessoas que, rapidamente, passaram a ter conta bancária, a ter acesso à moeda, a ter direito à escola em todos os seus níveis, aos sucessos do SUS e aos surpreendentes resultados de projetos como o “ciência sem fronteiras”. O Brasil cresceu, os bancos cresceram, o agronegócio cresceu, o mercado cresceu e a esquerda, mais uma vez, tal como o mitológico Hércules, limpou as cavalariças de Áugias para devolve-las ao próprio Áugias e, apesar disso, teve de enfrentar uma guerra para que, ao final, seu inimigo morresse de velhice.
Enquanto isso, no vazio deixado pela esquerda (inclusive aquela associada à igreja católica) os templos e seus pastores pentecostais, vão tomando conta das periferias brasileiras. Vamos, por vezes em velocidade jamais pensada, nos aproximando de uma república fundamentalista cristã. A presença de Temer (e sua esposa bela e do lar) e dos diferentes Bolsonaros (e seus pistoleiros) tem demonstrado essa possibilidade de forma inequívoca.
Assim, o povo vai, rapidamente, voltando para casa. Sem nenhuma perspectiva que não seja a continuação do que nos levou ao profundo buraco que estamos metidos, em defesa da razão de Estado e, de fato, sem nenhum movimento cujo fundamento mais básico seja a organização política e a disputa pelo poder por parte daquela lista de identidades que indiquei logo nos primeiros parágrafos deste texto.
As denúncias que se faz contra Lula, todos os dias, de forma mais que massacrante, não o retira do jogo eleitoral de 2018, pelo contrário. Da mesma maneira, as denúncias que fazemos contra Temer e seus deputados, não mobiliza a tal da “massa” em manifestações gigantescas capazes de mostrar a força e a justiça das reivindicações de esquerda. É preciso mais que isso: é preciso que uma nova geração retome o caminho em direção ao empoderamento político daqueles que, imaginamos, devem constituir uma nova maneira do viver humano. Sem isso, o que pensamos, não passará do que, rasteira e fragilmente, continuaremos a chamar de “políticas públicas”.
O povo não está nas ruas... e, como sempre, devemos considerar que isso faz parte de sua sabedoria. O problema é sabermos o que é, no final das contas, que o povo sabe? Será que ele sabe que seus velhos líderes, para mostrarem suas forças, o abandonou? Esse é o maior medo dos que creditam a si próprios a imagem de salvadores... nem a rede globo, nem os blogs sujos, sabemos o que o povo sabe e, menos ainda, que caminhos percorre para constituir o seu saber. 
De uma maneira ou de outra é, ainda, possível inferir que precisamos retomar um exercício perdido no momento mesmo da constituição do PT e da retomada da democracia de Estado, do tal do Estado de Direito, das eleições gerais e da mudança na rota geral das políticas públicas: o exercício do poder popular.
Nada diz, a princípio, que o modelo de Estado que herdamos do século XIX é, de fato, a última experiência possível para a humanidade, e o mesmo podemos dizer sobre a sacrossanta sacralidade da integralidade territorial dos Estados. É preciso repensar o formato geral do exercício do poder e, a princípio, uma das poucas experiências associadas a isso foram os sovietes no percurso que construiu os fundamentos da revolução bolchevique em 1917. Nenhuma outra experiência foi suficientemente radical. As experiências socialistas vindas na sequencia do século XX foram dominadas (mesmo que no contraponto e na necessidade da negação) no modelo que identificamos como URSS, uma espécie de czarismo desenvolvimentista que se tornou por décadas a identidade oficial do comunismo e, certamente, nada pode ser menos comunista que uma identidade oficial.
Relembro aqui a identificação feita por Lefebvre ao afirmar que Stalin era um hegeliano e não um marxista
Por fim, há de se considerar, ainda no contexto do povo longe das ruas, que, dia após dia a esquerda, com algum histórico de esquerda, tem se especializado em difundir e assinar abaixo assinados... é, de fato, o recuo no seu mais evidente limite. Daí para trás, diria Hamlet, é o silêncio....

 



terça-feira, 20 de setembro de 2016

Era uma vez...

Era uma vez um reino chamado Tão Tão Perto. Não se trata, portanto, de um reino governado por ogros simpáticos e humanos detestáveis. Claro! tem lá suas diferenças em relação aos reinos normais. Nele, como sempre acontece, tinha (ou tem?) um rei e uma rainha, mas, diferentemente do que se imagina no senso comum dos humanos detestáveis, eles se davam tão bem que até pareciam um casal de plebeus. 
Lá no reino do Tão Tão Perto, rei e rainha dormiam e ficavam acordados nos mesmos aposentos, se divertiam com bastante frequência e as damas de companhia gostavam de ficar com os ouvidos grudados na porta, para ouvi-la gemer e falar alguns palavrões enquanto atingia o orgasmo. 
Certo dia, no entanto, enquanto ela tomava seu banho matinal, e o Rei escutava-a cantar como de costume, as palavras cantadas obrigaram-no a fechar involuntariamente o semblante e mostrar-se preocupado com o que ouvia. 
Em meio ao barulho do jato d’água ela cantava, afinada e melodiosamente:

Hoje eu sonhei contigo 
Tanta desdita, amor 
Nem te digo 
Tanto castigo 
Que eu tava aflita de te contar 
Foi um sonho medonho
Desses que às vezes a gente sonha
E baba na fronha 
E se urina toda 
E quer sufocar

Nossa! que se será que tinha acontecido??? Por que aquela música assim, sem mais nem menos, iniciando aquela manhã?

Meu amor 
Vi chegando um trem do candango 
Formando um bando 
Mas que era um bando de orangotango 
Pra te pegar 
Vinha nego humilhado 
Vinha morto-vivo 
Vinha flagelado 
De tudo que é lado 
Vinha um bom motivo 
Pra te esfolar 

A cada estrofe o Rei arregalava os olhos e rapidamente, computador portátil em punho, procurou informações sobre aquela música que, martelando seus ouvidos, prenunciava uma profunda crise conjugal. 

Quanto mais tu corria 
Mais tu ficava 
Mais atolava 
Mais te sujava 
Amor, tu fedia 
Empestava o ar 
Tu, que foi tão valente 
Chorou pra gente 
Pediu piedade 
E olha que maldade 
Me deu vontade 
De gargalhar 

Computador ligado, internet conectada, google disponibilizado e o Rei, rapidamente, digitou um ou dois versos daquela que poderia ser a música final de seu já longo e feliz casamento e, certamente, a expressão mais acabada de que se iniciava uma terrível crise em seu pacífico reino.

Ao pé da ribanceira 
Acabou-se a liça 
E escarrei-te inteira 
A tua carniça 
E tinha justiça 
Nesse escarrar 
Te rasgamo a carcaça 
Descemo a ripa 
Viramo as tripa 
Comemo os ovo 
Ai, e aquele povo 
Pôs-se a cantar

Enquanto a cantoria continuava o semblante do Rei se desanuviava, um sorriso malicioso tomou conta de seus lábios, achou que estava tendo uma espécie de ereção não muito comum àquela hora do dia e, tirando o pijama, foi sorrateiramente entrando no banheiro…

Foi um sonho medonho 
Desses que às vezes a gente sonha 
E baba na fronha 
E se urina toda 
E já não tem paz 
Pois eu sonhei contigo 
E caí da cama 
Ai, amor, não briga 
Ai, diz que me ama 
E eu não sonho mais 

A rainha, surpresa com aquela fogosidade matinal, depois de gemer escandalosamente e reiniciar seu banho, olhou para ele e perguntou: de onde vem tanta energia logo cedo?
Do seu cantar, respondeu o Rei.
A rainha mostrou-se curiosa e, duvidando do marido como somente as esposas podem fazer, deu a ordem fatal: explique-se!!!
Ele, pacientemente, como um bom marido, respondeu:
Primeiro, ter uma rainha que conheça Chico Buarque é se casar com alguém que gosta de boa música;
Segundo, ouvir ela cantando uma música que foi tema do filme República dos Cafajestes, me faz lembrar que Tão Tão Perto é um reino e, portanto, você não estava cantando e pensando em mim;
E terceiro, o que me fez vir aqui e te bolinar, foi imaginar o que aconteceria se a esposa do atual presidente golpista do Brasil cantasse isso para ele… Não haveria engano quanto às intenções dela, não é mesmo?

A Rainha sorriu e beijou o marido na bochecha, soltando aquela frase venenosa que só as mulheres conseguem: ela nunca ouviu falar de Chico Buarque….