quinta-feira, 9 de abril de 2020

Crônica em torno do Corona vírus

Fui capturado pelo corona vírus. Não sei se nesse momento ele está presente e ativo em meu corpo e vai me derrubar em alguns dias, ou se, pelo contrário, ainda não foi incorporado ou, agora na melhor das hipóteses, ele já passou por aqui e foi devidamente combatido pelo meu sistema imunológico e, pelo menos por enquanto, já conquistei minha imunidade. Não é a isso que chamo de captura. Trata-se do fato de que, no momento, ainda preservo as chaves de minha casa, mas estou trancado dentro dela. Tenho medo do que possa estar do lado de fora. Algo como se estivesse vivendo os velhos (porque já se tornaram velhos) filmes sobre a presença de seres malignos se deslocando pelas ruas, sem culpa ou pré julgamento, simplesmente atacando os que ainda estão no patamar hoje aceito de normalidade e, assim, querendo transformar a todos em uma única espécie. Fui capturado porque nesses tempos ele me possui, toma conta de minha mente porque toma conta de meus medos. O medo de ser infectado, o medo de infectar, o medo do outro que pode me transformar em vítima ou, o que não é o mesmo mas é igual, pode se transformar em minha vítima. E assim, inconsciente de minha real situação evito abandonar a prisão, considerando que, paradoxalmente, ela é o único lugar livre de que disponho.
A cidade em que vivo,  geralmente buliçosa, agora mergulha no silêncio, para irromper, em torno das 8 horas da noite, num festival de aplausos que, como se produzido pela mesma mágica que move a todos a comemorar que ainda estão vivos e dar as devidas graças aos heróis do sistema de saúde público e pública, também a seguir as janelas se fecham, as luzes se apagam e o silêncio volta a dominar por mais 24 horas. 
Acho que enlouqueço. Me tornei uma pessoa mórbida que acompanha, também a cada 24 horas, quantos foram os que morreram e, nesses últimos dias, já estou comemorando que as centenas de mortos da última contagem é menor que da penúltima. Converso com amigos ou com aqueles que comigo compartilham da prisão e falamos do que acontece lá fora. Onde é o lá fora? As ruas, os parques fechados, os supermercados perigosos e as farmácias onde só se entra um de cada vez. 
Um metro é a distância mínima: a regra básica da sobrevivência. Não importa quem seja, considerando que os zumbis desses últimos meses não rastejam, não grunhem, não têm seus rostos e mãos decompostos como nos filmes. Meu inimigo potencial sorri, anda normalmente e, vez ou outra, cada vez mais vez que outra, se cobre com uma máscara. Não sei ao certo se seu dilema é não me infectar ou se ele desconfia de minha respiração ou, ainda, se, como eu, ele não tem a menor ideia de como está participando desse ciclo de autodefesa e autopiedade.
Hoje vi um artigo do El País, na sua versão brasileira, prognosticando que o vírus será vencido pela ciência e não pela religião e fiquei imaginando que, se o colunista fosse um pouco mais religioso, diria: com a graça de Deus. 
Em dois outros artigos, presentes também na versão espanhola, um articulista se pergunta se chegou a hora de uma constituição global, enquanto um filósofo chinês, reticente ao partido comunista de seu país, afirma que o capitalismo chegou ao fim. Fico a pensar se tudo isso não se associa, de uma maneira ou de outra, ao fato de que nas crises sempre surgem profetas, mais ou menos auto proclamados, de todo tipo, assim como nosso Messias brasileiro profetizando que o vírus será expulso do Brasil. 
A ambiguidade dos discursos, em nome da ciência ou da religiosidade (também há aqueles que se auto proclamam como ciência espiritual), parece ser o carro chefe do desespero e de seus gritadores, agitadores ou seja como seja que se possa identifica-los. 
É mergulhado em tais pensamentos que, daqui de uma das janelas de minha prisão (gradeadas para que os ladrões não entrem e não para que eu não saia, pois, no final das contas, aqui a violência é mínima mas o “seguro morreu de velho”), volto a observar o silêncio das ruas que, desde que as conheço, sempre se mostraram ruidosas (poucos carros em relação às grandes avenidas, mas ponto de encontro dos moradores do bairro) e sei que o caminho que percorremos em nossos retiros não depende somente da ciência (seja lá o que isso signifique) nem da religião, mas da mistura entre o medo ao desconhecido e à morte e o reconhecimento de não se estar só apesar do isolamento. Ontem também fui à janela gradeada bater palmas e. em meio aos aplausos das 8 da noite, um carro da policia passava com as sirenes ligadas em sinal de agradecimento e os aplausos se tornaram mais fortes, mais audíveis. 
Há, evidentemente, algo em tudo isso que vai para além de se acreditar na ciência, de se imaginar como os povos e seus governos e suas elites vão se comportar ao final da tragédia. 
Entre outros pensares, fico acompanhando Trump e seus assaltos descarados em nome da “américa para os americanos”, imaginando que tal postura poderá ser uma alavanca fundamental para uma segunda vitória nas próximas eleições e, mais ainda, me perguntando se a saída de Bernie Sanders da disputa não estaria associada à compreensão de que Trump vai continuar na presidência dos EUA e, portanto, permanecer candidato é uma batalha perdida tanto dentro do partido democrata quanto em relação ao eleitorado americano. Trata-se de algo muito próximo da lógica da família mafiosa onde o capo assim permanece porque mata e rouba em nome da sobrevivência dos seus. Nada disso, nem mesmo o Boris Johnson na UTI, nem os milhares de mortos e discursos desconexos, me parece, tendem a derrubar o capitalismo enquanto modo de produção e reprodução da vida. É preciso, de fato, que projetos políticos sejam disputados e façam sentido para os povos, e o que vejo é o fortalecimento do poder de Estado no seu formato mais próximo da tradição fascista, justificado pelo objetivo geral de salvar nossas vidas e controlar o comportamento dos reticentes, algo que a anarquia e o individualismo libertário (ou, no jargão dos neologismos, o tal do neoliberalismo) jamais conseguiria. Já se fala nessa tal Constituição Planetária, que quase certamente nos levaria a algo próximo do Estado Único. A ficção científica de caráter catastrófico vai se tornando proposta política salvacionista. 
Uma outra reflexão já começa a tomar conta do imaginário: o questionamento quanto ao volume e velocidade com que as estruturas produtivas estimulam o consumo e aceleram o processo geral de acumulação ampliada do capital (o jargão é conhecido). Trata-se, portanto, não exatamente do Estado Mínimo, mas do Consumo Mínimo. Algo que permita à humanidade sobreviver sem destruir as condições básicas de sua sobrevivência e, melhor que isso, sobreviver enquanto humanidade e não em base aos processos de exclusão criados pelo desigual acesso ao mercado e, obviamente, à distribuição de renda. Nossa salvação, portanto, não estaria na retomada do crescimento dos PIBs, mas, justamente, no seu inverso, associada a uma outra maneira de se acessar (participar de) o processo produtivo (redefinir a divisão social do trabalho) e as diferentes maneiras pelas quais se tem acesso ao produto geral socialmente criado. Em poucas palavras, tem gente imaginando que a crise sanitária se desdobrará na redefinição das bases sobre as quais se sustenta a sociedade capitalista. 
Bem... que dizer? Talvez que a prisão seja o melhor lugar para se sonhar com a liberdade? Bom... fico aqui, com as chaves de casa na mão e a decisão mais que firme de não abrir a porta e sair despreocupado pelas ruas.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Problemas de memória e algumas reflexões um tanto desesperadas sobre a escola



Gosto de lembrar de meus tempos de menino, jogando bola na rua, pilotando meu carrinho de rolimã, me equilibrando em um muro para manter a pipa no ar (chamávamos aquela maravilha de maranhão) ou, carregando minha caixinha nas costas, vagueando pela rua da Abolição e olhando para os sapatos dos adultos e ver se estavam sujos e necessitavam dos meus serviços (não creio que me dei bem nesse negócio, ou que em algum momento de minha vida tenha me dado bem como empreendedor). A memória é algo fascinante e, seletivamente, dependendo da fase que estamos vivendo, nos permite mergulhar no mais profundo do auto elogio ou da auto comiseração. 
Procurando fundamentos para o que quero escrever aqui, fui buscar na memória algumas referências em busca de compreender o como o Brasil dos anos 50, 60 e 70, realizou seu brutal processo de transformação e, entre outros fenômenos, me lembrei de como fomos capazes de levar ao limite estatístico os processos de migração para o Sudeste daqueles que não conseguiram suportar o trinômio latifúndio, seca e miséria e, a seguir, o avanço sobre o chamado Centro Oeste, num processo de eliminação das bases produtivas ali existentes e a expansão de novos formatos latifundistas, com a produção da soja, da carne bovina e outros muitos movimentos de destruição geral do ecossistema do cerrado e das bordas da floresta amazônica e do pantanal. 
Enquanto isso, as cidades do chamado Sudeste, Sul e da zona da mata Nordestina, foram recebendo suas camadas de asfalto, seus edifícios monumentais, sua carga de automóveis, postes e fios elétricos, produtos e mais produtos para um mercado sedento e insaciável de tudo o que tinha a marca do way of life europeu ou dos EUA. 
Foi nesse ínterim que entrei na pré escola para, logo depois, iniciar o primário. Mudamos de casa e tive de mudar de escola e a honra de participar da última turma de uma que, em sua única sala de aula, coabitavam diferentes níveis sob a batuta de uma professora, aquela que se tornaria, logo de saída, no modelo que eu seguiria na minha vida de professor. 
Terminei o quarto ano e fiz meu exame de admissão ao ginásio (algo que poucos anos depois também acabaria) e, mau classificado, fui estudar no noturno. Posso considerar, igualmente, que participei de uma das últimas turmas do tal do ginásio e, certamente, minha classe foi a última a ter de estudar latim. Era 1964 e os dias se arrastavam. Os militares prometiam reformas e o primário se juntou com o ginásio, o exame de admissão virou coisa do passado, chegou a licenciatura curta e alguém imaginou que História e Geografia poderiam ser ministradas por quem não tinha formação suficiente em nenhuma das duas áreas, nascendo assim os Estudos Sociais. De outro lado, química, física e biologia se materializavam com o nome de Ciências. A escola serviu, neste caso, para a consolidação da ideia de que História e Geografia não são ciências, que ambas tratam exclusivamente de questões sociais e, com tudo isso, foi-se criando uma espécie de limbo epistemológico, onde a ideia de ciência se resumiu a tudo o que, de uma maneira ou de outra, poderia ser matematizado. Os militares trouxeram consigo uma escola que se movimentava em direção ao resumo e assim sua expansão e consolidação foi demonstrando o que estava no ideário do movimento geral de transformação de nosso país. Não é preciso muito esforço para identificar no papel da instituição escolar o retrato sintético do que se costuma chamar de cultura. 
Quem duvida que a oferta de vagas nas escolas brasileiras se expandiu exponencialmente, ampliando-se para muito além do crescimento demográfico? Quem duvida que a redução dos custos na formação de professores permitiu ampliar o número desses profissionais? Quem não se deu conta que parte considerável desses novos professores, vivendo um processo contínuo de descrédito, de redução da capacidade de consumo, de conjugação entre a pressão dos processos migratórios e a possibilidade de se ter um emprego urbano, foram os personagens responsáveis pelo processo sistemático de consolidação da cultura urbano-industrial, sendo, em grande maioria, eles mesmos figuras distantes de possuírem os saberes que deveriam ensinar?  Quem duvida que a transformação do saber escolar, de um dilema de caráter epistemológico em dilema de caráter pedagógico, tenha feito parte desse ideário reducionista de construção do que Ruy Moreira chamou de urbe sem urbanidade? Afinal, o que nos levou a crer que é mais importante discutir o “como se ensina” que “o que se ensina”? No final desses questionamentos, de caráter iminentemente retórico, fica mais uma pergunta: quando foi que esse movimento reducionista parou e, se isso ocorreu, o que está em jogo com a presença medíocre das chamadas áreas do saber, algo pomposo e vazio de fundamento, que agora vai se transformar nos livros didáticos comprados pelo FNDE e, como sempre, ponto de partida para a organização de grande parte das escolas privadas? E assim, as chamadas elites terão de engolir o veneno que foi criado para as populações mais pobres, mas, sem dúvida, o farão com mais pompa.
Vale considerar que muitos são os Olavos de Carvalho que constroem cotidianamente nosso ideário de sociedade. Esse herói de triste figura, fácil de criticar em função do alarde que faz de sua própria mediocridade, tem muitos detratores, e é nesse grupo, me parece, que se reproduz sub-repticiamente os fundamentos gerais da mesma ideologia ou, o que é mais perigoso, de sua ausência aparente.
Voltemos. Estávamos observando que a partir dos anos 60 (é preciso dizer que estou me referindo ao século XX?) nossas cidades cresceram aceleradamente. Do algo em torno de 50% de população rural em meados do século passado, nos dirigimos à assustadora cifra de quase 90% de população urbana nesse final de década. Isso sem contar que nos mesmos anos 50 beirávamos os 50 milhões de brasileiros e que agora somos aproximadamente 200 milhões. 
Assim, enquanto as cidades incham e o asfalto representa a chegada do que se considera civilizado, os cinemas desaparecem, os teatros não se multiplicam, os terrenos baldios se tornam centros comerciais, parques e praças parecem investimento sem retorno, as ruas se tornam perigosas, brincar é assistir televisão ou jogar vídeo games, a classe média se esconde em condomínios fechados, se desenvolve o processo de escurecer os vidros dos automóveis e, voltando ao ponto, as escolas representam uma das poucas, senão a única, maneiras de acesso à cultura, por vezes associada ao processo de ascensão social, por vezes com o objetivo de tirar o jovem da rua, porque a rua não é o lugar do público, é o lugar da educação sem controle, é o lugar do vício, é o lugar onde nossos filhos não deveriam estar.
E assim fomos mudando... algumas dessas transformações foram radicais e, dentre elas está a maneira pela qual hoje se realiza a Geografia do processo de produção e reprodução da vida em nosso país, isto é, houve uma verdadeira revolução de caráter fascista na significação e ressignificação dos lugares. A transição que tentou por fim à sociedade escravista do século XIX, o fez enquanto um golpe de elites, indo em busca da constituição do último bastião da miséria na forma do trabalho assalariado. Outras mudanças tiveram mais o sentido de reformas no tipo e na cor das maquiagens que, propriamente, revoluções. Assim, se escolarizar é preciso, tal pressuposto em nada se parece com a socialização do acesso aos diferentes formatos da produção e reprodução da cultura. O que nos marcou foi o isolamento, a ausência, o resumo e a impossibilidade de se propor um projeto alternativo.
No limite, e nos dias de hoje, nossas elites nos presenteiam com uma Base Nacional Comum Curricular, dando continuidade ao projeto de sociedade que já estava em pauta quando se inventou os Estudos Sociais e, por fim, alguns de nossos autores já se auto censuram com medo dos Olavos de Carvalho avaliadores do Ministério de Educação e, quando não é o caso, fica o terreno escorregadio para algumas editoras, que se auto justificam com os mesmos medos quando exercem o poder de censurar antes mesmo que o Estado o faça. Sabemos quando a violência se institucionaliza quando obedecemos sem que ninguém precise dar ou receber qualquer ordem... o que talvez tenhamos perdido do horizonte é que nos comportamos assim, levando em conta os projetos que se iniciaram nos anos 60, desde há décadas. Nessas revoluções todas, não só perdoamos os assassinos e torturadores, mas lhes demos nossa benção em nome de garantir a democracia.  
Talvez seja por isso que vejo com certo romantismo os tempos em que ainda se permitia que uma criança andasse pelas ruas e, vez ou outra, eu saia com meu pai para panfletar a candidatura do Marechal Lott ou escutar, com algum fascínio e pouco anos depois, o João Goulart explicar aos trabalhadores o que seriam as reformas de base. 
Caros amigos, é preciso ir além da crítica (ou, em outras palavras, do ordenamento criterioso do pensamento), é preciso construir projetos que possam fazer sentido para as pessoas e, quando pensamos na escola, tal chamamento é de uma urgência brutal. É preciso que a escola abandone esse projeto reducionista de ensinar prioritariamente gramática  e rudimentos de matemática. É preciso que as tornemos um semeadouro de grupos de teatro, música, pintura, literatura e cinema. É preciso que saiamos às ruas e que transformemos o observado em discursos na forma de poemas, de contos, de mapas, de fotografias, de leituras históricas e geográficas sobre o mundo. É preciso que a gramática ou a matemática tenham mais sentido que o simples produtivismo e a preparação para o trabalho assalariado. Tais conhecimentos devem se tornar o que de fato são: ferramentas que utilizamos para organizar nosso discurso sobre o mundo que conhecemos e que isso nos permita avançar sobre aquele que ainda não conhecemos. Neste momento, enfim, é preciso que as escolas se dirijam às ruas, para que, dentro de algumas décadas, as formas de referência e produtividade cultural se multipliquem e a escola possa ser, outra vez, somente mais um, entre tantos, lugar da cultura. 
Enfim, precisamos conversar sobre isso, sem nos perdermos no oficialismo das reformas curriculares. Trata-se de colocar a escola sob a tutela dos movimentos populares e, portanto, entregar a formação de nossos filhos a nós mesmos e não ao Estado. Trata-se de uma luta política que envolve construir projetos, definir objetivos, organizar saberes e compreender que à medida que nos apropriamos dos conhecimentos disponíveis, acessamos as estruturas epistemológicas que os constroem e, portanto, passamos a pertencer, em diferentes escalas, à civilização que nos foi legada e na qual temos a condição de construir sua própria superação, construindo outras cidades, outros campos, outros trabalhos, outros saberes, outros amores e, em meio a isso, outras escolas. 

sábado, 7 de dezembro de 2019

Quando descobrimos que os fixos são fluxos.

 

#geografia

            Galileu dedicou grande parte de seus esforços em combater o senso comum de sua época e ele imaginava que as dificuldades de tal embate possuía um nome: Aristóteles[1]
Praticamente redescoberto por Thomaz de Aquino[2], Aristóteles vai substituir o ponto de partida da teologia católica, deixando para trás o pensamento platônico que a dominava, fundamentalmente, desde Santo Agostinho[3]. A retomada do pensamento Aristotélico trouxe consigo, como parte do legado, as lições que ele havia proposto em seus escritos sobre a Physis e se tornou a base de estudos de um sábio conhecido pelo nome de Sacrobosco. Em meu livro “A Reinvenção do Espaço” conto essa História com mais detalhes. 
Agora, alguns séculos depois, Galileu reconhece que a física aristotélica se coloca na contra mão das proposições de Copérnico e que a maneira mais eficiente de continuar avançando nas pesquisas que fazia e de garantir a aceitação publica dos resultados seria necessário, em primeiro lugar, evitar um confronto direto com a Igreja e, por decorrência, mirar todos os esforços no sentido de desmontar os argumentos de Aristóteles.
A obra mais avantajada de Galileu chamou-se “Diálogos sobre os Dois Máximos Sistemas do Mundo Ptolomaico[4] & Copernicano” e, logo no título, já se observa esse tipo de confronto: o livro é escrito na forma de diálogos, sendo isso uma referência às obras de Platão e, portanto, a maneira de expor os argumentos se diferencia estruturalmente do texto aristotélico. 
Um segundo detalhe é que os diálogos se realizam entre três personagens distintos, sendo que um deles é defensor evidente da física de Aristóteles e, com o sentido de minimizar ou reduzir o papel desse personagem, Galileu o chamou de Simplício. 
Deixemos agora esses detalhes de lado e vamos ao que nos interessa aqui: a física aristotélica propõe que a natureza é composta de quatro elementos distintos, a terra (o mais pesado entre eles), a água, o ar e o fogo (o mais leve de todos). Tal diferença justificaria que o mais pesado estivesse no centro do universo e os demais elementos, quanto mais leves são, mais distantes desse centro vão entrar em repouso, isto é, vão chegar ao seu lugar natural, por assim dizer. Por isso mesmo que, ao atirar uma pedra para o alto ela tenderá a cair de volta e ao acender-se uma fogueira as chamas tenderão a se dirigir para cima. Dois pontos a se confrontar se se quiser defender Copérnico: a terra não está em repouso (fazendo movimentos de rotação e translação) e nem os satélites, planetas ou estrelas. A conclusão fundamental que dará sustentação a tudo o que conhecemos hoje como ciência é a seguinte máxima: e, no entanto, tudo se move.
A luneta desenvolvida por Galileu parecia demonstrar, a cada passo, que ele tinha razão. Quando apontou suas lentes para a Lua viu que ela tinha, basicamente, a mesma configuração que a Terra. Tinha montanhas e vales, era possível se observar formações muito semelhantes à de vulcões e, principalmente, se movimentava de forma cíclica para se expor ou não à luz solar. Da mesma maneira, Galileu observou que, com sua luneta, poderia identificar estrela invisíveis a olho nu, bem como identificou o surgimento e o desaparecimento de alguns desses astros. Assim, ele vai propor que nada, absolutamente nada, está parado. Tudo que observamos como estando em repouso se deve ao fato de que tais objetos ou situações estão se movendo na mesma direção e velocidade que nós. E aí voltamos à sua proposição mais famosa: claro que podemos imaginar que as estrelas são fixas, mas, no entanto, elas se movem....
Tal descoberta daria o fundamento de tudo que, a partir de Galileu, se fez para  construir o que entendemos hoje por física ou, de forma genérica, por ciência. Do ponto de vista histórico valeria, ainda, realçar que tais proposições também carregavam e carregam seus problemas. Se acompanhamos o trabalho de Newton, veremos que ele vai se debater com o fato de todos os elementos se moverem e, assim, ficaria impossível saber o quanto eles se movem, por que, no final das contas, tudo isso se torna algo “absolutamente relativo”. 
Em busca de uma solução para seu dilema, Newton advoga a existência do Espaço e do Tempo como verdadeiros a-priori na existência da Natureza. Segundo suas proposições o universo teria sido contruído no interior do corpo de Deus e este, possuindo existência real e inequívoca, teria, no entanto, uma massa tão tênue que pouco ou nada interferiria na gravidade. Foi assim que o sistema de movimentos necessitava de um referência imóvel para poder existir e Deus foi a solução possível.
Einstein, por sua vez, revoluciona tudo isso e vai em busca de outro sistema de referência: a velocidade da luz. Ao considerar que, não importando se nos dirigimos para sua fonte ou dela nos afastamos, a luz sempre nos atingirá a uma velocidade de 300000 quilómetros por segundo, esse movimento se tornará o fixo num sistema onde cada objeto possui sua direção e velocidade. A variável, portanto, é que o fixo é a constante de um movimento. 
Para terminarmos essas pinceladas de um embate que foi sistematizado primeiramente por Aristóteles, dois mil e quinhentos anos depois dele teremos a presença da teoria do caos, um discurso que alguns físicos vai desenvolver a partir da segunda metade do século passado, alimentando o embate que permitiria ou não criar um sistema de referência e, portanto, algo fixo (nesse caso o controle total sobre o ponto de partida de um fenômeno, algo impossível de se obter) que permita observar e prever com precisão um movimento.
 As dificuldades são muitas e, para demonstrar a escala dessa confusão vejamos uma das maneiras com que o embate se expressou no interior do discurso geográfico: 
Numa primeira hipótese de trabalho, dissemos que a geografia poderia ser construída a partir da consideração do espaço como um conjunto de fixos e fluxos (Santos, 1978). Os elementos fixos, fixados em cada lugar, permitem ações que modificam o próprio lugar, fluxos novos ou renovados que recriam as condições ambientais e as condi­ções sociais, e redefinem cada lugar. Os fluxos são um resultado direto ou indireto das ações e atravessam ou se instalam nos fixos, modificando a sua significação e o seu valor, ao mesmo tempo em que, também, se modificam (Santos, 1982, p. 53; Santos, 1988, pp. 75-85).
Fixos e fluxos juntos, interagindo, expressam a realidade geográfica e é desse modo que conjuntamente aparecem como um objeto possível para a geografia. Foi assim em todos os tempos, só que hoje os fixos são cada vez mais artificiais e mais fixados ao solo; os fluxos são cada vez mais diversos, mais amplos, mais numerosos, mais rápidos.” (SANTOS, 2006. Pág 38) 
O ponto mais complexo desta proposição é aquele que nos leva à uma pergunta aparentemente simples: os fixos existem? Se levarmos em consideração as lições deixadas por Galileu, o que nos resta é uma afirmação cujos argumentos iniciais são desnecessários: sim, os fixos existem, mas, no entanto, eles se movem.
E que consequências teria isso para nossos estudos? Bem..., a primeira delas e a mais importante é a maneira pela qual observamos um fenômeno no sentido de compreende-lo. A existência de um fixo nos permite identificar algo que, com o transcorrer do processo de observação, vai continuar sendo sempre o mesmo. Caso consideremos que o fixo, no entanto, se move, há de se considerar que todos os elementos que compõem o fenomênico são, igualmente, fluxos. Possuem diferentes velocidades e direções, mas algo fixo, a principio, simplesmente não existe. 
O texto de Milton, em si mesmo, já expressa claramente a dificuldade dessa relação conceitual. Digamos que, como se observa no início do segundo parágrafo, se fixos e fluxos interagem, então o fixo é, igualmente, fluxo, pois toda interação pressupõe que os elementos em jogo se transformam mutuamente.  
 Na continuação do mesmo parágrafo, o autor nos informa que “foi assim em todos os tempos, só que hoje os fixos são cada vez mais artificiais e mais fixados ao solo”. Quais teriam sido os fixos do passado? As montanhas? As rochas? Tudo aquilo que nos aparecia como referência perene na realização cotidiana (ou não) da vida? Bem... é aí que, novamente, quinhentos anos depois, Galileu vem nos informar que mesmo as montanhas, as rochas ou seja lá o que for que se pareça fixo, no entanto, se move.
Assim, o que podemos afirmar é que a relação entre fixos e fluxos é uma ilusão do ponto de vista do fenomênico e, portanto, uma proposição que metodologicamente nos confunde e epistemologicamente é demasiadamente frágil para servir de base a qualquer campo do conhecimento. O desvendamento da ciência nos obriga a considerar que o fenomênico é uma relação entre fluxos, os quais, possuindo diferentes direções e velocidades são, de fato, os processos que determinam a maneira pela qual cada objeto observado se comporta. É exatamente por isso que o fundamento da Geografia é a noção de lugar e localização (processualidade) e não Espaço... mas isso, sem dúvida, é assunto para outra conversa. 

Uma bibliografia básica. 

AGOSTINHO, Santo.  A Cidade de Deus. 2 vols. Petrópolis: Vozes,  1° vol. 1990a e 2° vol. 1990b.
ARISTÓTELES. Fisica - Libros I - II. Buenos Aires: Biblos, 1993.
ARISTÓTELES. Fisica – Madrid, Editorial Gredos, 1995
BALIBAR, Françoise. Einstein: uma Leitura de Galileu e Newton. Lisboa: Ed. 70,  1988.
BERGSON, H. O que Aristóteles Pensou Sobre o Lugar. Campinas, Editora Unicamp, 2012
BRANCO, J.M.F. Dialética, Ciência e Natureza. Lisboa: Ed. Caminho, 1989.
BURTT, Edwin A. As Bases Metafísicas da Ciência Moderna. Brasília: Ed. UNB,  1991. 
COHEN, I. B. O Nascimento de Uma Nova Física. Lisboa: Gradiva, 1988.
GALILEI, G. Diálogos sobre os Dois Máximos Sistemas do Mundo Ptolomaico & Copernicano. São Paulo, Discurso Editorial/FAPESP, 2001
NEWTON, I.  O Peso e o Equilíbrio dos Fluidos. Os Pensadores, vol. XIX. 1ª ed. São Paulo: Abril Cultural, 1974b.
NEWTON, I. Princípios Matemáticos da Filosofia Natural I. São Paulo: EDUSP, 2002
PLATÃO. A República. São Paulo: Atena Ed.,s/d.
SACROBOSCO, J. Tratado da Esfera. São Paulo: Unesp, 1991.
SANTOS, D. A Reinvenção do Espaço. São Paulo, Ed. Unesp, 2002
SANTOS, D. Um Objeto para a Geografia. Sobre as Armadilhas que Construímos e o que Devemos Fazer com Elas. Terra Livre no. 30, AGB Nacional, São Paulo, 2008
SANTOS, M. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção 4a.. ed. 2. reimpr. - São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006.



[1] Todas as obras aqui citadas e mais algumas outras estão listadas na bibliografia.
[2] Tal como se observa na Suma Teológica no item que trata da Criação e das Criaturas. 
[3] A principal obra de Agostinho é a “Cidade de Deus”. 
[4] Vale lembrar que o sistema ptolomaico se baseia nos princípios da física aristotélica.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Nacionalismos: doença infantil do esquerdismo e base identitária do fascismo

Em busca de uma frase de efeito vale inspirar-se em Lenin e seu "Esquerdismo: doença infantil do comunismo” propondo os seguintes termos: Nacionalismos: doença infantil do esquerdismo e base identitária do fascismo. 
Pertencer ao mundo, compartilhar a vida com a humanidade e com todos os demais elementos que compõem o que chamamos de natureza, não é uma escolha, é a condição do existir contemporâneo. Ter tal consciência e considerar-se como co-partícipe do processo de construção da humanidade do humano - entendendo, sempre, que a transformação do humano é, igualmente, transformação da natureza - é, no entanto, um longo caminho a ser percorrido. No limite, ainda podemos encontrar aqueles que se sentem pertencentes a uma cidade, a uma nação ou a um país e, nos dias de hoje, a algo como a União Europeia (raros, mas existem). 
É preciso, portanto, que o ensino da geografia radicalize a noção de humanidade. Precisamos ensinar que a humanidade não é somente a somatória de pessoas, mas as pessoas são, igualmente, a realização individualizada e necessária do existir da humanidade. Da mesma maneira, a proposição exige uma releitura do que entendemos nossa relação com a natureza. É preciso compreendermos que somos uma das maneiras pelas quais a natureza existe enquanto tal e, portanto, longe de podermos destruir a natureza, o que podemos de fato é nos organizarmos de tal maneira que nossa presença na natureza se torne impossível. 
Tal como em relação aos pequenos grupos tribais, para os quais a ideia de nação foi a criação necessária à expansão e consolidação dos grandes impérios e, mais recentemente, realização particular da universalidade que conhecemos como Modo de Produção Capitalista (e devem ser vistas como são, isto é, a particularidade necessária e estruturante da realização de uma singularidade que chamamos de Formação econômica e social), exigindo algo muito mais complexo que a nação e que, portanto, a ela não se resume (considerando que tal mediação tem o Estado como seu formato básico de realização). Voltamos, portanto, ao ponto de inflexão com o qual a geografia se deparou a partir de Kant: pertencer ao mundo, mas se identificar com a Nação. Agora o mesmo impasse muda de escala: é preciso se identificar com o mundo para pertencer a uma nação.


segunda-feira, 3 de junho de 2019

Território: em busca de um conceito

Em relação às três categorias que compõem a construção do discurso geográfico (paisagem, território e região), é importante considerar que possuem conceitos diferentes e interdeterminantes.  A primeira delas está associada à dimensão da aparência e, portanto, ao processo de percepção das formas do mundo pelo sujeito. Tal percepção é, por sua vez, a imediatidade, isto é, a condição que cada um de nós possui, tendo como referência os saberes já construídos e passíveis de se acessar imediatamente, de reconhecer as formas do mundo utilizando de nossos sentidos. A possibilidade do sujeito de reconhecer a distribuição das formas percebidas (tamanho, distância, interrelação) é o que permite que seu pensar sobre o mundo ultrapasse o limite da imediatidade (aparência) e chegue à condição do reconhecimento mediatizado, pensado. Este concreto pensado é o Território. 
Para evitar maiores confusões vale considerar que o território do poder é, de fato, uma região, isto é, o território tematicamente recortado. O Brasil, por exemplo, possui um território, mas o discurso que faço sobre ele e que tem a existência do Estado Nacional enquanto territorialidade (País) como pressuposto é, de fato, o reconhecimento de que Brasil é uma região cuja identidade está na existência de um Estado Nacional específico. Por fim fica a mesma indicação já feita em relação às categorias anteriores: território não é uma coisa, mas o reconhecimento de que o ecúmeno humano possui formas e que é dessa percepção  que se ordena a dimensão topológica que possui (co-habitação), é a indicação da existência de uma ordem que define os diferentes processos que compõem a realidade empírica. 

domingo, 2 de junho de 2019

Há vida inteligente no comando do palácio do planalto???

 Para os tempos de hoje a resposta a essa pergunta pode ser crucial para a análise da política de Estado no Brasil, na identificação de seus sujeitos, no reconhecimento das cartas que estão sobre a mesa e, nesse contexto, daquelas que se encontram escondidas e cuja ordem desconhecemos. 
Confesso, com certa alegria, que essa tentativa de reflexão me foi provocada por um artigo que li na internet, estava disponibilizado no twiter dos Jornalistas Livres e foi escrito por Rodrigo Perez Oliveira, professor de Teoria da História na Universidade Federal da Bahia e pode ser encontrado emhttps://jornalistaslivres.org/o-bolsonarismo-radicalizou-o-lugar-da-fala/
Vejamos alguns fundamentos de caráter metodológico para que possamos reduzir a inelutável ambiguidade da resposta. No passo a passo da reflexão, a primeira pergunta a se fazer é: o que entendemos por vida inteligente em um lugar determinado?
Considerando as pesquisas recentes que identificam um leque cada vez mais amplo de animais superiores capazes de construir cultura e, portanto, de mudarem de comportamento através da aprendizagem, vida inteligente pode ser encontrada em muito mais lugares que aqueles habitados por seres humanos. 
Uma resposta como essa nos coloca frente ao ridículo da pergunta inicial. Se inteligência é a expressão que nos permite identificar comportamentos associados à construção de culturas, então no Palácio do Planalto tem inteligência por trás do emaranhado de discursos e comportamentos considerados nonsenseou estúpidos ou… bem, não importam os adjetivos. Fiquemos no limite de identificar como comportamentos pouco inteligentes.
Vejamos: se a expressão “inteligente” está associada à capacidade de “interlegir” e, portanto, de “ler por dentro”, identificar relações que não são óbvias, reconhecer significados nas entrelinhas e assim por diante, a relação direta entre inteligência e construção de cultura fica um tanto quanto abalada. 
Acontece que “ler por dentro” implica, sempre, ler algo determinado, isto é, responder a um desafio, cujo controle não está nas mãos dos sujeitos desafiados e, portanto, inteligentes em determinadas situações podem se mostrar medíocres sob outras. Assim, podemos afirmar que não existe inteligência no geral, mas a expressão deve ser utilizada para identificar aqueles que respondem melhor a este ou a aquele desafio. Fico aqui imaginando a minha relação com os pincéis, com instrumentos agrícolas e com uma interminável lista de assuntos com os quais não tenho qualquer familiaridade. Não consigo tocar um instrumento musical sequer, nem mesmo uma flauta doce e, portanto, em relação à música me coloco na posição de um ouvinte mais ou menos medíocre (uso a mim mesmo como exemplo para evitar polêmicas desnecessárias)
 O segundo passo desse “procedimento metodológico” se aproxima mais do artigo de Oliveira, pois, imagino, se faz necessário questionar se, independentemente da inteligência dos sujeitos, o conhecimento é algo possível. Lembro sempre nesses momentos de um embate entre Henry Lefebvre e Cassirer. Enquanto o neo-kantiano escreve milhares de páginas sobre “O Problema do Conhecimento”, o marxista afirma que o conhecimento não é um problema, é um fato. Em um resumo forçado e feito de memória, diria que o conhecimento só se torna um problema quando se torna objeto de reflexão metafísica. O homem comum (Goldmann?) sabe que sabe, porque o resultado de seus atos estão conforme suas expectativas e reconhece que não sabe quando seus fazeres (incluindo aí os seus pensares) não dão conta de seus objetivos. Em linhas gerais, todo ceticismo em relação ao saber é um reconhecimento de que o saber existe.
É aí que, no meu entender, Oliveira mostra a genialidade de sua reflexão: ao apontar que, com interesses aparentemente tão díspares, certos militantes do movimento negro, outros do movimento indígena, feminista e por aí vai, possuem fundamentos epistemológicos que se associam aos bolsomínios e aos terraplanistas e pos aí vai….
Fica, portanto, a dúvida que intitula essa reflexão: há vida inteligente na cúpula do palácio do planalto? Se inteligência for algo genérico e metafísico, certamente que sim, se não é esse o caso e, portanto, ela estiver associada aos desafios assumidos pelos sujeitos… aí permanece a dúvida. Assumindo como pressuposto que não existe inteligência nem conhecimento genérico ou, como o poeta diria do amor, como verbo intransitivo, então vale perguntar se esse grupo que assumiu a política de Estado no Brasil tem inteligência e é capaz de produzir saberes associados diretamente a essa tarefa e, pelo que se tem visto, a resposta é pura e simplesmente não. Essa trupe nascida e crescida e educada para gestar relações de milicianos e enquanto milicianos, que sobreviveu na política no contexto de permanecer no baixo clero, tem governado (e sobre isso já refletiu Eliane Brum), mas isso não significa que saiba fazê-lo. Ao que parece a inteligência que possui não responde aos desafios colocados e, nessa condição, provavelmente não sobreviverá. 
Do ponto de vista dos inteligentes de Brasília (essas figuras existem), no roldão do movimento geral que deu na composição do atual governo, mantê-lo deve estar associado à inexistência de  alternativas à direita (uma eleição nesse momento, provavelmente colocaria o PT no poder). Assim, respondendo à pergunta inicial: as inteligências na cúpula dos três poderes estão dispersas, procurando algum ponto sobre o qual criar alianças tácitas e controlar a guerra entre grupos mafiosos que se articulou a partir do impedimento de Dilma Roussef. Essa guerra entregou o poder a um desses grupos, mas está longe do seu fim. Pactos de cessar fogo duram pouco e tendem a se tornar cada vez mais frágeis. Nesse momento se articula uma luta que não tem nem mesmo a direita ou a extrema direita como alvo. O que se objetiva, desesperadamente, é que um grupo de pessoas que possuam alguma inteligência para gerir o palácio do planalto e as cúpulas que se distribuem pela esplanada dos ministérios, venha em socorro do país. 
Que pena… empobrecemos até os nossos desejos, o que mostra que estamos sendo pouco inteligentes. 

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Geografia: seus assuntos e seus caminhos metodológicos

Os temas não definem se uma abordagem é ou não geográfica. Podemos falar de relevos, rochas, climas, mapas, populações, cidades, campos e tantos outros temas mais, tendo como referência os saberes fundados na geologia, na climatologia, na cartografia, na demografia, na sociologia, na economia, física, química, e a lista não terá um final que satisfaça os que se preocupam com o assunto. O que define uma ciência é a maneira como o sujeito constrói sua dúvida e, fazendo uso de uma tradição, busca responder o que ainda não foi respondido e, na melhor da hipóteses, perguntar o que ainda não havia sido perguntado. Para sabermos se uma abordagem é ou não geográfica há, sem dúvida, um ponto de partida cuja fundamento acharemos em suas próprias raizes: A pergunta do sujeito deve estar, antes de mais nada, associada à relação possível entre a distribuição e localização dos elementos que compõem um processo e a maneira pela qual tal condição define o próprio processo. Tal resposta, no entanto é insuficiente, pois, de uma maneira ou de outra, o reconhecimento da ordem possível de qualquer fenômeno é uma busca primária em qualquer campo do conhecimento. É preciso avançar e identificar que na nossa tradição, independentemente da infinidade dos temas possíveis, todos se associam à escala do ecúmeno humano. Para a tradição geográfica a disposição das estrelas só fazem sentido se nos ajudam a localizar uma direção ou ponto específico em nosso planeta e associado diretamente ao nosso viver. Da mesma maneira, a estrutura química de uma rocha e, portanto, o ordenamento molecular que a define, só interessa à geografia quando tal informação nos ajuda a entender o sentido de “lugar” que ela cria e, portanto, em que medida estar onde está define o existir das sociedades que, direta ou indiretamente, a ela estão associadas. É por isso mesmo que a cartografia é a linguagem mais utilizada pela geografia, pois, no final das contas, é a que permite representar “topológicamente a topologicidade do fenomênico na escala do ecúmeno humano” (juro que não copiei essa proposição de um manual de bruxaria). Assim, para além dos temas, o que define uma ciência é a dúvida sistematizada por um sujeito e é, justamente, na maneira pela qual ele a constrói que se define qual é o seu objeto. Não é o objeto que define uma ciência, mas a maneira pela qual o sujeito o constrói e, portanto, não basta ser geógrafo (e nem ao menos é uma condição prévia) para se fazer geografia, é preciso saber construir suas perguntas e, por consequência, achar os caminhos que permitam construir respostas.